“Should I stay or Should I go?”

Ora pois, agora em português. E já agora porquê na língua de Pessoa? Por vários motivos, mas o principal é que já percebi que utilizar o inglês tem constituído um obstáculo comunicacional, sobretudo para a minha família e amigos que são, desde o primeiro momento, alguns dos principais destinatários destas linhas. Outra razão tem a ver com a minha percepção sobre o que são directrizes pré-definidas. Sempre pensei que as regras, a ordem, a lei e outros elementos pré-determinados devem estar ao nosso serviço e não o contrário. Deste modo mudei de idioma simplesmente por achar que neste momento é mais eficiente comunicar desta forma. O caro leitor não se admirará se outros idiomas aparecerem por aqui no correr dos dias…
Estive ausente [aqui] por um bom tempo, desde o primeiro exame do período de homogeneização entretanto terminado. Foi intencional. Não quis que a pressão dos exames e as emoções que eles geram interferissem muito no discurso e provocassem uma série de comentários mal medidos e que pudessem dar ao leitor uma perspectiva errada do que estava a acontecer. Por vezes, em contextos de cansaço e pressão, surgem apreciações, percepções e conclusões superlativas que, apesar de sinceras, podem não ser mais do que espuma. É um pouco disso que quero escrever hoje, do que senti ao longo destas últimas três ou quatro semanas. Semanas intensas, mas nem sempre satisfatórias, capazes de suscitar dúvidas sobre mim, é certo, mas sobretudo sobre a escola. Falemos disso então.
Durante este tempo andei um pouco por todo o lado a discutir os exames, o que andava a fazer na EGP e, mais importante, se iria ou não continuar no programa. A forma de avaliação proposta parecia-me caduca, incipiente, desajustada e pior, fazia com que o grupo desfocasse totalmente dos seus objectivos. Ainda não mudei de opinião e penso que a escola deveria repensar este período inicial do curso.
Passo a explicar com um exemplo – a disciplina de Introdução a Economia. A turma, incluindo os do MBA “lento” (ok, isto é uma maldade) tem um número importante de elementos que nunca estudou economia ou similares. Seria, deste modo, uma excelente oportunidade para muitos reflectirem sobre algumas questões que rodeiam o problema económico. Concedo que as aulas, na sua maioria, foram nesse sentido, mas a avaliação… pour Toutatis... a avaliação inquinou uma importante parte do processo, isto apesar da “gestão dos danos”.
Observei o grupo – de que faço parte! – a utilizar o instinto de sobrevivência, estudando resmas de exames antigos e muito pouca gente (alguém?) a ler bibliografia proposta. E, pior ainda, à medida que o teste se aproximava, ninguém queria perceber qual a lógica por detrás do que se falava, os conceitos. Importante era responder à pergunta “olha, já fizeste o 6.2 do exame de 2003?”. Tal abordagem parece-me redutora e se a isto juntarmos um exame longo em que um aluno razoável não tinha hipótese de responder como deve de ser à totalidade do teste e, sobretudo, de raciocinar 30 segundos no que ia fazer (juro que não estou a exagerar), então estamos perante uma situação anacrónica e que me fez pensar. É que professores há melhores e piores, coisas que correm melhor e outras pior, mas quando se trata de uma disciplina orientada pelo director da escola, a situação ganha obrigatoriamente outra força, ganha o poder de uma “mensagem”. E foi isso que me fez reflectir se estaria no sítio certo, a frequentar o curso que, nesta altura da minha vida, faria sentido. Não vale a pena chover no molhado, falar muito mais nisto, mas que equacionei muito fortemente a minha saída é um facto e discuti isso de peito aberto com a minha mulher, com os meus amigos com alguns colegas da escola, do trabalho, com mesas de jantares com mais de 20 pessoas, com a EGP, no fundo com toda a gente que me apareceu à frente naqueles dias.
[é importante dizer que felizmente completei com sucesso este período e que no exame em questão consegui uma avaliação no top ten, por isso não me estou a justificar de nada; seria também injusto não reconhecer o esforço feitos por outros docentes, nomeadamente do professor de estatística, em adequar a avaliação ao que foi feito durante as aulas]
Foi bom ter conversado com tantas pessoas e até com gente que veio falar comigo sem as conhecer, como aconteceu com comentários neste blog que muito agradeço.
A decisão de ficar ficou clara a partir de um momento muito concreto e é profundamente enriquecedor dar-me conta do processo. Um colega, já um amigo, manifestou-me as mesmas dúvidas. Ao reflectir sobre o problema dele foi muito mais fácil entender o meu. É que bastava ter presentes as palavras do Jorge Araújo no outdoor de Vila Verde – “foquem nas consequências, é preciso tirar consequências”.
Analisando a questão por esse prisma só nos era permitido ficar. Sendo sucinto: se ficarmos arriscamo-nos a perder tempo e dinheiro – algo que já estava no cepo quando decidimos a candidatura; se fossemos embora poderíamos estar a arriscar muito mais, nomeadamente que simplesmente estivéssemos “a ver mal a coisa” e que nos arrependêssemos logo uns dias a seguir. E se fosse esse o caso, caro leitor, iríamos correr o risco de viver a vida inteira com uma dúvida e com uma amargura cá por dentro que nos iria acompanhar sempre, que tentaríamos com certeza racionalizar, mas que iria estar lá. E sendo assim só me vieram à cabeça as palavras desse meu grande guru, agora em África, de quem também me orgulho de tentar ser seu conselheiro “And remember that only those who dare to fail greatly can ever achieve greatly…”
Em resumo, falem sempre uns com os outros, digam sempre o que tenham a dizer aos vossos amigos, colegas, professores, entre outros. Nunca se sabe se não é “aquela” palavra de que não se aperceberam que ajuda a mudar a vida de alguém. E nunca tenham medo de reclamar, estrebuchar, pensar, duvidar, reflectir e de decidir. É que tudo só vale a pena se for vivido em pleno e sinto muito orgulho em ter chegado à idade das certezas (os 30’s) e ter tido dúvidas. Só vale pena se for, como dizem os bugueiros nas dunas do Ceará, “com emoção”.
Tuesday, October 16, 2007 at 12:18
Muito bom post. Arriscas-te a ser tu próprio um guru
Um dia destes que te apanhe sem estares a estudar vou perguntar-te, mais uma vez, algumas coisas.
O professor de Estatistica, se for o que eu tive na FEUP, e pela Brochura é, é muito bom professor, e uma pessoa muito sensata. Para mim é um dos professores que me puxa para o MBA, e há ai um dois que não me puxam nada. Não digo os nomes, que para o ano podem ser meus professores
Boa sorte para o teu clube
Abraço
Wednesday, October 17, 2007 at 17:05
Caríssimo,
Vamos por partes: com emoção, sem dúvida. Aliás, acredito que este será o mote e a conclusão – “podes não aprender muito, mas serás uma pessoa diferente após este ano”. Acredito nisto. Até porque as transformações são, muitas vezes, silenciosas e indeléveis, começando de devagarinho até nos alcançarem violentamente… (e creio que todos ansiamos pelas transformações – aliás, às vezes, olhando para aquela malta vejo uma sala de espera de um cabeleireiro, onde cada um acolhe que o corte que lhe toca seja “aquele” por que tanto almejava…)
É contagiante a sabedoria desse teu guru – que terá ido a África encontrar as raízes da terra-mãe! Voltamos, em certa medida, à história dos 10-80-10. (Parece que estás a entrar nos 10). Ou, noutra medida, ao carpe diem. Intensidade. Eficiência. Resultados. Nada que não nos seja (há muito) pedido no dia-a-dia… Mas sobre a questão da “excelência” poderemos voltar a falar.
Bom e uma última nota sobre as consequências – dão frutos. Ficaste! E assim, voltamos ao início: expectativas para este no round?
Abraço.